A compra de 10,26% do Assaí pela família Muffato, que controla a cadeira de supermercados e atacarejo com forte presença no Paraná, coloca em evidência um efeito direto da política de juros elevados sobre o mercado acionário: com a taxa Selis a 10,75% ao ano, o capital de risco migra para ativos já rentáveis, comprimindo a expansão orgânica de empresas regionais e estimulando participações relevantes em competidores maduros. A transação, que eleva os irmãos Ederson e Everton Muffato à condição de segundo maior acionista do Assaí, atraiu o olhar do Cade, pois concentra 16,8% do capital votante da rede de atacarejo nas mãos de apenas três gestoras — Orbis, Muffato e Dynamo —, alterando o grau de rivalidade no setor que responde por 37% do varejo alimentar nacional e emprega 1,7 milhão de pessoas.

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O movimento ocorre quando a economia brasileira convive com inflação de serviços acima de 5%, juro real positivo de 6,5% e crescimento do crédito para pessoa jurídica estagnado em 3% ao ano. Para o setor de atacarejo, a alta taxa de captação encarece o capital de giro, que representa 42% das vendas, e eleva o custo de novas lojas para cerca de R$ 25 milhões por unidade. Nesse cenário, a expansão via aquisição de ações de concorrentes passa a ser mais barata do que abrir pontos de venda: o preço/EBITDA do Assaí negociou-se em 7,2 vezes nos últimos doze meses, abaixo do múltiplo de 9,5 vezes que o próprio grupo paga quando constrói uma bandeira verde. A operação, realizada por fundos do BTG Pactual e WHG, também reflete a busca por hedge contra a desaceleração do consumo: as vendas do atacarejo cresceram apenas 1,8% em abril, metade da variação observada no varejo amplo, e o indicador de emprego formal do setor recuou 1,1% no primeiro trimestre.

Apesar do discurso de que o investimento é “estritamente financeiro”, o stake de 10,26% confere aos Muffato direito a assento no conselho de administração e acesso a informações estratégicas de preço, mix e expansão logística. A empresa controlada pela família tem 60 lojas no Paraná e 22 unidades da Max Atacadista em estados vizinhos, mas não detém escala para competir de forma direta com o Assaí em São Paulo, onde a rede já soma 147 lojas e 22% de share de mercado. A participação cruzada, portanto, reduz incentivos para uma guerra de preços regional, ao mesmo tempo em que pode facilitar acordos de fornecimento com indústrias de bens de consumo que negociam volume nacional. Do ponto de vista regulatório, o Cade analisará se a operação gera “efeitos substanciais” sobre a concorrência, critério que, segundo a Guideline nº 18, é presumido quando a participação adquirida supera 5% e há sobreposição geográfica de 30%; nesse caso, a fatia é o dobro e a sobreposição atinge 42% das cidades onde ambos atuam.

Para o mercado acionário, a entrada de um player setorial como acionista de referência eleva o free float do Assaí de 49% para 59%, melhorando a liquidez do papel que já acumula alta de 14% em 2024, contra 7% do Ibovespa. O efeito, contudo, pode ser parcialmente compensado pelo risco de governança: fundos de índice que exigem dispersão mínima de capital podem ajustar a ponderação caso os Muffato formalizem pedido de assento no conselho antes da aprovação do Cade. Do lado real, a consolidação de participações sob gestoras especializadas sinaliza que o ciclo de fusões e aquisições do varejo alimentar ainda está longe do fim: o setor tem 42 mil empresas, mas os dez maiores grupos detêm 43% da receita, índice inferior aos 60% observados em México e Chile. Com a taxa de juros de longo prazo acima do potencial de crescimento da economia, a tendência é que capital privado e famílias empresárias prefiram ganhar escala via bolsa de valores, preservando caque e evitando novas dívidas em um ambiente em que o spread bancário médio permanece em 22% ao ano.

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